Exclusivo | Vanguart lança disco com releituras de Bob Dylan: "queríamos algo afetivo para quem ouvisse" Música

Exclusivo | Vanguart lança disco com releituras de Bob Dylan: “queríamos algo afetivo para quem ouvisse”


Durante a madrugada desta sexta-feira (28), a banda Vanguart lançou seu primeiro trabalho não-autoral de estúdio, com o disco Vanguart Sings Bob Dylan

Com o total de 16 músicas, Helio FlandersReginaldo Lincoln, David Dafré e Fernanda Kostchak dão novos ares a músicas marcantes de Bob Dylan, mas sem que sua essência fosse perdida.

Em entrevista exclusiva ao Pop Cultura, o vocalista Helio Flanders conta detalhes do projeto, desde a ideia de levar Bob Dylan ao estúdio, até a “ilha de prazer” que foi o processo de gravação praticamente ao vivo e a influência do artista americano no que é o Vanguart.

Ouça o álbum Vanguart Sings Bob Dylan:

– A essência do Bob Dylan, apesar de ser um trabalho de releituras, foi mantida nas músicas. Esse foi um objetivo de vocês? 

Helio Flanders: Olha, não foi um objetivo consciente… a gente acabou tocando Bob Dylan do jeito que a gente gosta, do jeito que a gente tocaria naturalmente. Tanto que foram arranjos que já tinham nascido em shows em que a gente tocava Dylan. Canções que vieram só no estúdio, como Make You Feel My Love, por exemplo, o natural era eu sentar no piano e tocar daquele jeito. Então, a gente acabou tocando da maneira que havia, da forma mais natural. Depois de pronto, eu consigo olhar pro disco e falar: ‘que bom que a gente não descaracterizou o Bob Dylan’, porque às vezes eu ouço algumas versões das músicas dele que eu falo, ‘nossa! Poderia ser qualquer coisa!’ (risos). Acho que, quando a gente ouve as canções, dá pra perceber que é o Bob Dylan. Então, eu gosto do resultado, mas foi algo bem natural.

– Nessa ideia de ter suas próprias versões do Bob Dylan, outros artistas que gravaram músicas dele serviram de inspiração? 

HF: Com certeza. I’ll Keep It With Mine é uma música que o Dylan nunca gravou oficialmente. Ela está em lados B dele, mas é uma música que a Nico, do Velvet Underground, gravou lindamente no disco dela chamado Chelsea Girl, de 67, porque o Dylan deu a canção para ela. E a gente se inspirou muito na versão da Nico. Acabou não ficando tão parecido, mas se não fosse a versão dela, essa música não estaria no disco. Então, foi uma versão bem bonita que eu acho que serviu de inspiração para gravarmos.

The House Of The Rising Sun, inevitavelmente, é inspirada nos Animals, junto com a Nina Simone. A I Shall Be Released, eu também me inspirei na Nina Simone e o Reginaldo tinha ouvido a versão do Joe Cocker, e misturamos as duas coisas. Ah, e Restless Farewell, foi inspirada em uma versão que o Bob Dylan tocou no aniversário de 80 anos do Frank Sinatra, que era uma música praticamente voz e violão, do terceiro disco dele, e que mais tarde ele tocou com banda, uma versão maravilhosa que serviu de inspiração para nós, em vez da original.

– Levando em consideração o vasto trabalho do Bob Dylan, como vocês chegaram nessa tracklist de 16 músicas? Foi uma escolha pensada nas canções mais famosas, ou nas que vocês gostam mais? 

HF: Foi um pouco de tudo. O primeiro fator foi escolher músicas que já estavam prontas, que a gente já tocava ao vivo. Canções que já existiam dentro do nosso repertório e que a gente gostava de tocar. Mas acho que entra um pouco do pessoal quando a gente colocar as três primeiras canções do álbum Blood On The Tracks, que é o meu favorito. Então, acabamos mesclando todos os critérios. Inevitavelmente, fomos até 75, que é onde mais gostamos, mas também tem Make You Feel My Love, que é de 96. Foi um pouco de tudo. No fim, tentamos fazer canções que a gente gostava e também canções simbólicas do Bob Dylan. A gente não queria que ficasse um disco “lado B”, mas sim que as pessoas ouvissem o álbum e reconhecessem canções que são afetivas para elas também, e não só para nós.

– E teve alguma música que você quis colocar, mas acabou ficando de fora por falta de espaço? 

HF: Ah, algumas. Quando eu estava pensando no tracklist, eu lembro que eu queria algumas outras. Na gravação, eu estava muito apaixonado por Tryin’ to Get to Heaven, que é uma música de 96. Eu estava obcecado por ela, mas aí me convenceram a não gravar com argumentos terríveis, como ‘Helio, essa música só existe para você!’ (risos), e aí eu acabei resignado e aceitei. Mas hoje, pensando nisso, essa música ainda continua na minha lista. Se tiver um volume dois, essa vai ter que entrar. Não aceito mais o não como resposta.

– Ah, então há a possibilidade de ter um volume dois do álbum pela frente?

HF: Espero que sim!

– Apesar de já tocarem músicas não-autorais ao vivo, é a primeira vez que vocês levam um projeto assim para o estúdio. Foi muito diferente de gravar um álbum totalmente de vocês? Como foi esse processo?

HF: Foi muito, muito diferente. Foi muito mais legal (risos)! É que existe uma carga emocional muito grande de cantar suas próprias canções. Acho que teve um distanciamento muito gostoso da gente fazendo esse álbum. Tanto que eu fiquei viajando por um tempo e, quando voltei, me perguntaram quantas vezes a gente ia ensaiar, e eu falei: ‘duas’. E eles, ‘mas como assim? É um disco ao vivo!’. E eu falei: ‘cara, é Bob Dylan! Eu só preciso estar olhando para o baterista e a gente se resolve!’.

Eu gravei voz e violão juntos, com todos os instrumentos já valendo. Então, o disco é basicamente ao vivo, pelo menos 90%. E foi muito gostoso de gravar. Com Vanguart, a gente ficou 30 dias gravando Beijo Estranho; nesse, a gente ficou 4, 5 com os overdubs. Então, foi muito light de fazer, muito gostoso. Claro que a gente sempre briga no meio, briga saudável, do processo, mas foi muito gostoso. Mas eu também já estou com vontade de fazer o Vanguart de novo e ficar lá cortando os pulsos nas minhas crises para cantar minha vida novamente.

– E como foi a escolha de gravar Bob Dylan? Porque vocês são bastante influenciados por vários artistas. Neil Young é só um exemplo… além de Beatles, que vocês já fizeram o projeto ao vivo. Por que levar Bob Dylan ao estúdio?

HF: Acredito que o Vanguart não existiria do modo que ele é, se não fosse o Bob Dylan. Quando eu tinha meus 14, 15 anos, o Bob Dylan foi fundamental para que eu seguisse fazendo música do jeito que eu faço hoje, preocupado com o aspecto poético antes de qualquer outra coisa. Ele me fez procurar muitas leituras que hoje fazem parte da minha vida e, para mim, a música é letra, basicamente. Então, não tenho como escapar do Bob Dylan. E acredito que a gente conseguiu fazê-lo de um modo nosso também.

Tem um argumento do Rafael Ramos, que produziu o disco com a gente, que é muito importante: “nem todo mundo consegue ouvir o Dylan”. Faz parte da estética dele, negar a estética do belo, do bonito. E a gente tentou fazer do modo afetivo, de um modo delicado. Acho que eu canto de um modo bem delicado nesse disco, em vários momentos. Então, acho que tenha sido o artista certo para que o Vanguart se justificasse como banda.

E eu ainda acrescentaria o fator Fernanda Kostchak, porque ela entrou para o Vanguart por conta do Bob Dylan. O primeiro show que fizemos com ela foi em homenagem a ele. E hoje a Fernanda é um pilar da banda. O Vanguart não existe sem ela. É uma voz muito forte no grupo, artisticamente e autoralmente.  Então, é muito simbólico gravar Bob Dylan para celebrar esse encontro.

– Já aproveitando o gancho da Fernanda, os quatro integrantes da banda cantam nesse álbum. Como foi a escolha de quem cantaria cada música? 

HF: Muito já veio da parte ao vivo. A Fernanda já cantava The House Of The Rising Sun; o David Hurricane, só ele para conseguir isso; e o Reginaldo é um vocalista de rock muito bom, então ele acabou pegando essas mais roqueiras. E eu, claro, acabei pegando as mais afetivas para mim, especialmente Simple Twist of Fate, You’re a Big Girl Now, Restless Farewell, I’ll Keep It With Mine… canções que eu sempre quis cantar. Já cantava ao vivo, mas achei que devessem estar no disco.

A gente faz muito bem as músicas delicadas do Dylan. Então, se eu pudesse dizer quais eu acho as melhores do álbum, seriam: Simple Twist of Fate e You’re a Big Girl Now. São canções que, se caísse uma agulha no chão do estúdio, daria para ouvir. Estávamos tocando de uma maneira muito delicada, muito sutil. A gente escolheu essas músicas por razões unicamente musicais e, hoje em dia, num mundo em que as pessoas têm que gritar para serem ouvidas, é um privilégio.

– Para a divulgação do disco, vocês têm, até o momento, três datas de shows em São Paulo. Vocês pretendem fazer turnê pelo Brasil com esse novo trabalho?

HF: Ah, espero que sim. Claro que Bob Dylan não é uma coisa tão simples de viajar, também. É um show muito mais específico. Mas devemos nos apresentar nas capitais, sim, espero que em breve.

Esse show de lançamento é bem legal. Eu traduzi as letras com o David, então vai tudo passar em português no telão, o que é muito importante para as pessoas conhecerem a obra do Dylan e entenderem por que ele ganhou um prêmio Nobel de literatura. Porque, mesmo para quem fala inglês, em uma hora de show ou mais, só em inglês, sempre escapa alguma coisa. Então, também é muito bom para entender o poder da palavra do Bob Dylan. É um show bem bonito, com vídeos dele, ótimo para quem já conhece e também para quem quer conhecer o Dylan.

– Essa gravação do Dylan, até por ser em inglês, claro, dá abertura para vocês fazerem shows fora do Brasil? 

HF: Pode acontecer, mas não é um objetivo agora. Séria ótimo, mas acho que o Vanguart ainda tem muita coisa a dizer no Brasil. A gente vive um momento político e social muito delicado, então acho que a gente ainda precisa viajar muito o Brasil e falar para as pessoas o que a gente sente. As pessoas concordando ou não, temos que dar nossa versão dos fatos e falar sobre os nossos sentimentos aqui, de maneira muito urgente. Então, a gente vai continuar cantando por aqui, em português, coisas que já existem e que ainda vão nascer.

– O projeto Vanguart já tem quase 20 anos de existência. Como você avalia o amadurecimento da banda, desde o começo e até agora? 

HF: Eu acho que a gente ainda está crescendo em público. Isso é muito bom. A gente aprendeu muitas coisas nesses últimos tempos. A gente vem tentando ser melhor, tentando entender nossas próprias limitações e tentando sobreviver em um cenário muito hostil. Mas, ao mesmo tempo, fizemos amigos incríveis. Eu, Reginaldo e David seguimos tocando juntos há quase 20 anos, desde quando éramos adolescentes. A Fernanda já está com a gente há quase 10 anos. A parceria com o Rafael Ramos é uma coisa incrível, que fez a gente evoluir muito.

Seguimos encontrando artistas que nos influenciam e que sempre foram importantes para nós. Não tenho do que reclamar. Nós tivemos muita sorte. Trabalhamos muito para isso, mas tivemos sorte de encontrar pessoas incríveis e generosas em nosso caminho e que a gente tenha saúde emocional para deixar esse caminho mais bonito ainda, para não abandonar tudo e morar no campo, pelo menos nos próximos 10 anos.

– Até pelo tempo de estrada do Vanguart, vocês devem ter acompanhado as mudanças no mercado musical: LPs, CDs e, agora, é tudo digital, praticamente. Isso mudou, de alguma forma, o jeito de vocês fazerem música? 

HF: O jeito de fazer, não. O jeito de vender, um pouco. A gente continua fazendo álbuns, porque é o que a gente gosta de fazer. A gente nasceu perto de 2003, com o surgimento do MP3, depois o CD sumiu, o LP voltou… então, nunca vivemos num espectro de indústria fonográfica estável. A gente sempre viveu esse modelo de acabar uma coisa e logo começar outra. Então, nunca pudemos fincar os pés e nos acomodar. E isso também foi muito bom para percebermos que precisávamos fazer as coisas por nós, com naturalidade, com propósito.

Acredito que é o que ainda fazemos, até hoje. Isso ajudou muito a banda existir até hoje, porque a gente já fazia o que a gente queria desde o começo e é o que ainda faz sentido para a gente.

– E depois de ter sentido falta de escrever suas loucuras, enquanto gravava o disco do Dylan, já tem algo autoral do Vanguart planejado? 

HF: Muitas loucuras (risos)! Do nosso terceiro para o quarto álbum, a gente ficou quatro anos para lançar, porque a gente precisava de um tempo para entender as coisas. Agora, acho que vamos ficar uns três, também. A gente pretende lançar um disco autoral em 2020. Acho que é um tempo que precisamos para entender, com cada um fazendo suas coisas. É bom para respirarmos e voltarmos.

Esse disco do Dylan foi uma ilha de prazer no meio dessa trajetória. Eu estou com muita vontade de fazer um disco novo. Vai ser muito bom a gente se encontrar e, agora, já sendo outro, né? Quando passam dois, três anos, a gente já é outra pessoa, e isso é muito legal. Todos voltamos diferentes e com um novo gás para o trabalho. Então, acho que no próximo ano vem um disco autoral do Vanguart aí, e estou muito animado para fazê-lo.

SERVIÇO  – Vanguart Sings Bob Dylan

Data: 05, 06 e 07 de julho
Local: Sesc Santana (São Paulo)
Horários: 21h, 21h e 18h, respectivamente
Preços: R$ 40 (meia-entrada); R$ 80 (inteira)

Ingressos podem ser adquiridos online através deste link ou pessoalmente em qualquer unidade do Sesc.

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