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Crítica | Afeto e cotidiano marcam a trama de “Assunto de Família”


Com um domínio para falar sobre afetos, Hirokazu Koreeda nos apresenta um retrato intimista de uma família em desconstrução no seu longa “Assunto de Família” (“Shoplifters”).

Vencedor da Palma de Ouro em Cannes e recentemente indicado na categoria de melhor filme estrangeiro no Oscar, representando o Japão na corrida, “Assunto de Família” apresenta uma família pobre que mora em Tóquio e sobrevive de pequenos roubos. Certa noite, após um furto, Shota (Jyo Kairi) e Osamu (Lily Franky) se deparam com uma garotinha em necessidade, logo, a acolhem.

O filme foge de todos os clichês, começando pela “adoção” da pequena Yuri (Miyu Sasaki). Tudo acontece de uma maneira muito natural, sem grandes dilemas e discussões. O filme em si é de um grande naturalismo, nos apresentando situações cotidianas de uma família não-tradicional.

Ao todo, são seis personagens que em apenas duas horas são muito bem desenvolvidas e recebem a devida atenção do Koreeda, contribuindo para uma experiência imersiva com a história. O diretor demonstra maestria ao desconstruir aos poucos essa família e nos revelar seu passado, sem grandes revelações bombásticas ou plot-twists de tirar o fôlego. Pelo contrário, tudo é apresentado de uma forma muito natural que contribui para o objetivo do filme de ser uma experiência intrínseca.

Foto: Reprodução/Facebook.

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Koreeda opta por contar a história com o uso de planos fechados e chapados, gerando um espaço íntimo entre o espectador e as personagens, além de nos aproximar do pequeno lar em que convivem. Tal escolha acaba contribuindo também para todo o “mistério” da história. Aos poucos percebemos que aquela não é uma família comum, apesar de todos os afetos, existem segredos sobre o passado dessas personagens. Com isso, mesmo criando uma curiosidade, o diretor acaba sempre nos puxando para o presente, ofuscando o passado com seus planos próximos e focando nas relações de carinho entre as personagens.

Sendo o principal tema do filme as relações familiares, “Assunto de Família” dialoga facilmente com outras obras atuais como “Roma” (2018) e o brasileiro “Benzinho” (2018), principalmente pelos três utilizarem do ambiente da praia como forma de comunhão entre os familiares. Outro ponto do filme é também a forma com que ele nos apresenta a precarização do trabalho, os personagens adultos possuem dilemas muito verossímeis e chega a chocar por mostrar uma realidade pouco vista do Japão, justificando todo o estilo de vida da família.

Aki (Mayu Matsuoka), Nobuyo (Sakura Andô) e Osamu (Lily Franky) passam por dificuldades realistas em seus respectivos ofícios e sempre levando as questões pro campo da afetividade. O maior exemplo é de Nobuyo que, após uma chantagem, opta por perder seu emprego para proteger Yuri, que corre o risco de voltar para seu lar abusivo. Apesar de possuir detalhes que fazem com que o filme pertença fortemente à cultura japonesa, a história poderia facilmente ser adaptada para um cenário brasileiro.

O roteiro tem uma quebra quando essa família é forçada a sair da zona de conforto e enfrentar a realidade de uma sociedade injusta. Nesse ponto, Koreeda ainda buscar explicar certas lacunas abertas, porém, sem se aprofundar. Se isso acontecesse, poderia virar mais uma história de tribunal que vemos todos os dias por aí. Contudo, felizmente, durante seus 121 minutos, “Assunto de Família” prova que seu foco sempre foi o tempo presente de uma família que ao, fugir dos padrões, busca em si, o acolhimento.

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