Paul McCartney em Discos e Canções Literatura, Música

Diferenciado, novo livro sobre Paul McCartney segue caminho menos percorrido ao falar de discos e canções


No mês de outubro, um novo livro sobre Paul McCartney chegou às livrarias brasileiras. Diferente dos lançamentos mais recentes, que, em sua maioria, focam mais ou igualmente em sua trajetória de vida e pessoal, “Masters – Paul McCartney em Discos e Canções” traz um lado diferente, voltado às gravações do músico e se enquadrando literalmente no conceito de biografia musical. 

Escrito em cerca de dois meses pelo jornalista brasileiro Claudio Dirani e lançado pela Sonora Editora, o livro percorre um caminho alternativo e pouco explorado para trazer fatos e curiosidades sobre a obra musical de McCartney, artista já muito trabalhado por biografias batidas, que não trazem grandes novidades ao leitor, principalmente aos fãs mais assíduos.

Na obra de Dirani, a vida pessoal fica em segundo plano, já que não pode ser desvencilhada da carreira do cantor. O foco é cada álbum lançado a partir do término dos Beatles, em 1970, quando McCartney se lançou em carreira solo. A cada capítulo, as músicas são descritas separadamente, com detalhes buscados em entrevistas pouco conhecidas do artista, assim como pessoas que já trabalharam com ele.

Em entrevista ao Pop Cultura, Claudio Dirani contou sobre o processo para escrever o novo livro sobre o músico (o autor já havia lançado “Paul McCartney – Todos os Segredos da Carreira Solo”, em 2005), a escolha de percorrer caminhos pouco explorados e a preocupação em dividir igualitariamente os capítulos, tanto em obras mais aclamadas, como “Band On The Run”, quanto nas menos comentadas, como “Back To The Egg”.

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O autor, Claudio Dirani, e a repórter, Giullia Gusman.

Veja, abaixo, os trechos principais da conversa:

 Pergunta: Eu queria que você me falasse um pouquinho sobre o processo de criação desse livro.

Claudio: Esse livro foi diferente do meu primeiro [Paul McCartney – Todos os Segredos da Carreira Solo]. Eu apanhei uns 20% daquele livro e ampliei, que são as partes dos álbuns e das músicas. Só que me pediram para fazer esse livro, diferente do outro. E eu tive que correr em menos de dois meses. Então, além de ter que fazer a pesquisa, auxiliar, fazer outra redação, montar e esquematizar o livro, eu tive que correr para finalizar. O período foi de 2 meses para escrever e depois outro processo para editar. Foi como os Beatles tinham que fazer os primeiros discos, né? Vai ter que fazer dois por ano e vai ter que compor para lançar. Mas ficou caprichado.

P: E você conseguiu agendar entrevistas nesse período?

Claudio: Para esse livro, eu aproveitei várias entrevistas que eu tinha, não publicadas, e inseri dentro das músicas. E usei também coisas que ficaram no outro livro e, por exemplo, trechos dessas mesmas entrevistas que não foram usados, eu aproveitei aqui. E isso dá um ingrediente especial. Ah, fora a entrevista com o próprio Paul, que nunca tinha sido publicada, só transmitida. Então foi a primeira vez que a tem papel.

P: Há quanto tempo você vem armazenando esses detalhes? Até por ser fã…

Claudio: Meu arquivo é uma bagunça eterna. É material que eu tenho do Ebay, trechos de coisas que realmente as pessoas talvez não liguem. Por exemplo, tem uma revista Cream, que não existe mais também, trechos de entrevistas desse tipo, tem entrevistas dadas para a rádio BBC, do London Town, por exemplo, que nunca foi publicada. Só tem em áudio, e a qualidade do áudio não é muito boa. Se você quiser publicar uma coisa que não tem no papel, você tem que ir mais por esses outros atalhos. Se você for sempre no lugar comum, você vai ler a informação que sempre tem.

Tem essas coisas básicas, claro, que nem todo mundo que lê também vai ser um fã daqueles que vai querer saber onde o Paul McCartney comprou o bandolim de “Dance Tonight”, que eu descobri, a propósito [no vídeo no fim da página, com a entrevista na íntegra, há mais sobre essa história]. E tem a coisa mais básica de “Band On The Run”. Então não são coisas que que não dá para viver sem saber, mas é uma parte íntima que você trava com a pessoa, com o artista. Você chega mais próximo, eu acho. Por isso decidi incluir.

P: Teve algum motivo específico para o livro ter sido lançado nesse momento?

Claudio: A editora quis calhar com a passagem dele por aqui. Hoje ele tem 75 anos, próximo de lançar mais um álbum. Mas gente sabe que o mesmo ritmo de produção e lançamento a gente não vai alcançar, então eu acho que com esse livro, quem tiver em mãos, já vai ter pelo menos 80% do que ele fez na carreira solo, assegurado. E os demais a gente pode atualizar depois.

A gente teve essa preocupação: fazer uma redação que não só agradasse quem fosse atrás da informação, e pudesse ler rápido, fluente, para divertir. Tem humor, tem uma parte mais descontraída, para não só ficar no livro, e sim na literatura. Então, essa foi uma parte importante.

P: E das coisas que saíram do livro, foram mais vida pessoal?

Claudio: Se você conhece bem a carreira do Paul, você sabe que a parte pessoal dele e musical se confundem muito, porque a vida passou na estrada, por exemplo, ou cuidando das crianças, ou na estrada com a Linda. Então ele nunca se desligou da música, ao contrário do George [Harrison], por exemplo, que tem os anos de reclusão. Então, para quem lê, vai ter muita parte pessoal, mas sem fofoca, por exemplo. Tem alguma especulação no caso da Heather Mills, porque não dá também para fugir disso, afinal ele pagou 30 milhões de libras, que não é para qualquer um, e isso influenciou drasticamente no modo que ele faz as turnês e o motivo de fazer turnês. Ninguém gosta de perder 30 milhões de graça.

Quem lê também vai ter essa parte pessoal, eu cuidei disso. Não é um livro técnico. Eu podia ter colocado mil informações técnicas que eu não coloquei, mas foram propositais. Me preocupei com algumas curiosidades que agradassem o leitor técnico e não técnico.

 P: Tem algum álbum do Paul McCartney que você mais tenha gostado de escrever sobre?

Claudio: O que eu também me preocupei foi em explorar o terreno menos percorrido. Por exemplo, o “Back To The Egg”, não é um disco muito falado, então tem algumas coisas muito bacanas sobre isso, como o Paul McCartney ter gravado “Million Miles” no Castelo de Lympne, na Escócia. Ele subiu numa das sacadas que tinha no local, ao ar livre, com uma concertina, que é uma espécie de sanfona, e gravou isso na hora. Essas músicas nunca são comentadas, então esse livro não é para aquela pessoa que procura o comum. Porque eu procurei explorar esses discos que não são muito comentados, procurar esses detalhes. Então tem muito disso. Isso tem em todos os capítulos. Eu procurei fazer em todos, sem exceção.

O lançamento do “Venus and Mars” é outro negócio muito legal, porque num barco que ele lançou ancorado, eu acho que valia uns 20 bilhões de dólares quem estava lá dentro. Foi lá que ele entregou para o Michael Jackson a fita de “Girlfriend” e falou, ‘Olha, seria legal se você gravasse’. E isso foi em 1975, e ele foi gravar só em 1978 para o “Off The Wall”. Essa é uma história bem legal que tem. E no livro tem a descrição de todo mundo que estava lá dentro do barco.

 P: Você tem a ideia de traduzir o livro e levar para outros lugares?

Tem uma coisa legal sobre isso. Um fã da Itália, que gosta de música brasileira, de Gil, Toquinho, e ao mesmo tempo é fã dos Beatles e do Paul. O nome dele é Sérgio, e ele aprendeu português por causa da música brasileira e comprou o livro, e ele foi para a Itália. Isso é muito legal. O Marcelo Fróes, editor, falou que mais pra frente vai ter a oportunidade, de repente, de a gente tentar o Mercosul, a princípio. A Argentina, por exemplo, que tem um mercado de rock muito forte. Então seria muito bom. Nem sonho muito em trazer para o inglês e tal, se acontecer, maravilha, mas o Mercosul, essa parte da Argentina e Uruguai, ia ser fantástico.

Outra coisa é que existem poucos livros desse tipo. Não só do Paul. Você decupar os álbuns e as músicas individualmente, não encontra muito disso. Existem uns guias do Bob Dylan e dos Rolling Stones que têm essa proposta de música a música, mas são três linhas de cada uma. Um espaço contado para o disco. Nesse livro, não, você tem um espaço mais ou menos igualitário para cada um. Essa foi outra preocupação. Eu não quis fazer um capitulão de “Band On The Run” e um capitulinho “McCartney II”. A mesma atenção que eu dei para “Let Me Roll It”, eu dei pra “Check My Machine”, então acho que quem procurar ler vai notar isso.

P: Alguma das biografias sobre o Paul McCartney que você usou para se apoiar tem um formato que se aproxime do seu livro?

Claudio: Existe um livro, de um italiano, inclusive meu amigo, chamado Luca Perasi, que focou mais nessa parte das gravações, tanto que é mais cronológico do que álbum por álbum. Eventualmente, chega a dizer que o primeiro é “McCartney”, o 2º é “Ram”, vai ser na cronologia do livro, só que no meio do capítulo ele grava “Tug Of War”, que é de 82, mas ele vem gravando desde 80. “Back To The Egg”, “McCartney II” e “Tug Of War”, ele segue a linha cronológica das gravações, então eu acho que é um livro mais técnico. É um livro muito bom, eu peguei algumas informações de lá.

Procurei focar nessas fontes que também não são muito comentadas, porque tem muitas biografias do Paul, para dar e vender. Esse livro foi criado exatamente para ser uma válvula de escape. Quem quiser ler as outras biografias, lógico, tem que ir, eu indico. Mas se você quiser ver uma coisa além do que é o normal, fique à vontade para ler “Masters – Paul McCartney em Discos e Canções”.

Abaixo, ouça a entrevista na íntegra:

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