A Day in the life Música

#SgtPepper50: A história por trás da música “A Day in the Life”


Em comemoração aos 50 anos do histórico álbum “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, dos Beatles, preparamos um especial de sete dias com curiosidades e histórias por trás de sua produção. Hoje, neste sétimo e último post, falaremos sobre a história por trás da canção “A Day in the Life”.

A música que encerra o “Sgt. Peppers” sempre foi considerada um tesouro, desde o momento em que foi criada. Na época das sessões do disco, a banda costumava se reunir da casa de Paul McCartney, em St. John’s Wood, antes de ir até o estúdio da EMI. Lá, eles terminavam de escrever as músicas e, então, partiam para Abbey Road. Neste dia, tanto John Lennon como Paul McCartney chegaram eufóricos com o que haviam criado, loucos para mostrar a canção para o produtor, George Martin.

O acidente de Tara Browne:

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No dia 18 de dezembro de 1966, Tara Browne, bisneto do criador da cerveja Guinness, aos 21 anos, sofreu um acidente de carro na madrugada londrina. Sua namorada à época, Suki Potier, sobreviveu à batida, diferente de Browne. Ele era bastante próximo de Paul e Mike McCartney, assim como era muito amigo de Brian Jones, dos Rolling Stones.

A notícia de sua morte foi o que inspirou Lennon a escrever “He blew his mind out in a car. He didn’t notice that the lights had changed. A crowd of people stood and stared” [Ele detonou sua cabeça no carro. Ele não notou que o sinal havia mudado. Uma multidão de pessoas parou e olhou], diferentemente da “possível morte de Paul McCartney”, da qual já falamos por aqui.

Em um entrevista dada por John à Rolling Stone em 1980, ele disse: “Eu estava lendo o jornal um dia e reparei em duas matérias. Uma delas era sobre o herdeiro da Guinness que havia se matado em um carro. Esta era a notícia principal. Ele morreu em Londres, em um acidente de carro”.

Especial desde sempre:

Algo bastante atípico aconteceu com “A Day in the Life”. Geralmente, os Beatles finalizavam as canções antes de partir para a próxima. Desta vez, porém, eles acharam que a obra era tão boa, que decidiram deixar 24 compassos no meio dela para que gravassem depois.

A parte que ficou “em branco”, digamos assim, era justamente a parte de McCartney. Ele encontrou o verso inacabado em um caderno e achou que funcionaria de forma perfeita, como de fato aconteceu.

“Woke up, fell out of bed
Dragged a comb across my head
Found my way downstairs and drank a cup
And looking up I noticed I was late”

A voz ouvida fazendo a contagem antes da parte de Paul é de Mal Evans, o roadie dos Beatles. A ideia é que os quatro integrantes ouvissem apenas em seus fones de ouvido, mas Evans ficou tão empolgado que o som vazou para os microfones.

O despertador ouvido nesta parte, inclusive, foi uma pura coincidência. John Lennon havia levado para “acordar Ringo quando ele precisasse fazer um overdub”. Mal, então, teve a ideia de programá-lo para o início do 24º compasso, antes mesmo de saber o que haveria ali. A incrível combinação com a letra foi algo que fez Geoff Emerick acreditar que esta era, realmente, uma música especial.

Estúdio:

 Geralmente, Paul McCartney era quem fazia as contagens de todas as músicas, pois era quem mais tinha noção de um andamento. “Com a Day in the Life”, porém, John Lennon foi responsável por isso e, como de costume, usou palavras aleatórias no lugar dos números. As escolhidas, desta vez, foram “Sugarplum fairy sugarplum fairy”.

Desde o começo, a voz crua de Lennon na canção impressionou todos aqueles que participavam da sessão. George Martin mais tarde chegou a dizer que na canção “A Day In The Life” sua voz é única. Tão crua que “chega a dar um frio na espinha”.

Depois de gravar os versos e parte do meio da canção, os Beatles deram mais um tempo para decidir o que fazer para dar a ‘liga’ entre elas, e também como terminar a música. Já era claro que seria a última faixa do disco, portanto eles gostariam de algo especial.

Paul McCartney sugeriu a ideia de ter uma orquestra sinfônica tocando aleatoriamente, mas George Martin vetou por causa dos custos que aquilo traria. Ringo, então, sugeriu a genial a ideia: “bem, podemos contratar meia orquestra e pedir para eles tocarem duas vezes!”, o que, de fato, aconteceu.

Depois, eles decidiram que queriam que os instrumentos subissem da nota mais baixa que podiam tocar, até a nota mais alta, transformando a música em um orgasmo sonoro no final, como classificou John Lennon.

Festa em Abbey Road:

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A contratação da orquestra foi decidida. Os Beatles, porém, sabiam da obra que estavam criando e, então, decidiram fazer da gravação uma verdadeira festa: chamaram vários amigos famosos, incluindo Mick Jagger, Marianne Faithull, Keith Richards, Brian Jones, Donovan, Graham Nash, Mike Nesmith, entre outros.

“Os Beatles eram uma espécie de realeza pop naqueles dias: eles circularam pelo estúdio distribuindo suas atenções para um indivíduo, depois para outro, como se fossem a família real fazendo uma aparição pública. Naquela noite, eles transformaram o estúdio na própria sala de jogos particular. Se eles não podiam sair para festejar por causa da fama, eles traziam a festa até eles!” – Geoff Emerick [Minha vida gravando com os Beatles, 2013].

Foram distribuídos diversos chapéus engraçados e narizes de borracha para que o clima realmente fosse de festa. A orquestra, é claro, não ficou muito feliz.

A sessão, que durou cerca de duas horas e meia, foi gravada também em vídeo, com a ideia de mostrar o backstage da canção.

Depois da gravação, todos que estavam presentes ficaram admirados com o que ouviram. Paul McCartney ainda pediu que os convidados ficassem mais um pouco pois tinha a ideia de terminar a canção com todos cantando uma nota em uníssono. Eles chegaram a gravar isso, apesar de quase todas as tentativas terminarem em risada, mas nunca usaram.

A nota eterna de “A Day in the Life”:

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Passada a festa, os Beatles se reuniram novamente para acertar o final da canção. Foi decidido fazer uma nota bem longa no piano. George Harrison não participou da sessão, então foi substituído por Mal Evans no piano.

No total, foram dois pianos de cauda Steinway, um piano vertical Steinway (propositalmente desafinado de leve para ganhar um efeito honky-tonky), e uma espineta de madeira. Também havia um piano elétrico Wurlitzer separado no estúdio, devido ao ruído que fazia.

Para que o som fosse mantido constante, Geoff Emerick teve de aumentar o volume até o máximo, conforme a noa soava. No fim, se ouvirmos atentamente, é possível ouvir um ruído do sapato de Ringo no chão de madeira, o que levou a um olhar bastante bravo de Paul McCartney.

De fato, uma das músicas mais trabalhosas e importantes gravadas até então. Como o próprio engenheiro de som disse, em seu livro, “Em muitos aspectos, Sgt. Pepper era como dois álbuns: as faixas gravadas até “A Day in the Life”, e aquelas que foram gravadas depois”.

Não haveria melhor maneira de terminarmos este especial, senão com esta música. Uma das grandes obras-primas dos Beatles.

Gostaríamos de indicar, para quem acompanhou nossas postagens, o livro de Geoff Emerick, como podem ver abaixo. O álbum “Sgt, Pepper” foi o que ele mais se envolveu e o que mais deu trabalho, mas ele também conta sobre outros trabalhos dos Beatles. São relatos detalhados de como a banda funcionava no estúdio de gravação.

Bom, então é isso! We hope you have enjoyed the show! 🙂

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