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Filantropia, inspirações e ausência de John Lennon: Julian Lennon inaugura exposição “Cycle” em São Paulo


Nada de taxá-lo como ‘filho de John’, porque não é necessário. Julian Lennon tem seus próprios talentos, apesar do inconfundível olhar que herdou. Nesta quarta-feira (26), o artista esteve na Leica Gallery, no bairro do Higienópolis, em São Paulo, para inaugurar sua nova exposição de fotos, “Cycle”. 

Em três seções diferentes, Cycle, Rock N’ Roll Suite e Horizon, a amostra traz a visão de mundo capturada de forma sensível por Lennon através de sua máquina. Na primeira, estão fotos daqueles que vivem nas margens do Mar da China Meridional; na segunda, alguns retratos de ícones mundiais da música, em destaque, a banda U2; na terceira, fotografias capturadas durante uma viagem pelo Quênia e Etiópia, em uma bela junção com a filantropia. Definitivamente, seu trabalho mais profundo e significativo.

Quando perguntado sobre quando a filantropia entrou em sua vida, e como surgiu a ideia de praticá-la em conjunto com a fotografia, Julian Lennon não poupou palavras para descrever o que, claramente, gosta muito de fazer: através de fotos, trazer à tona aquilo que nem sempre é falado ou mostrado, com o propósito de ajudar pessoas.

“A filantropia simplesmente veio a mim. Tudo o que eu já fiz na vida vem naturalmente, de um lugar orgânico. O primeiro contato que tive com o tópico foi quando eu estava na Austrália, em turnê com a música chamada “Saltwater”, quando um chefe tribal veio a mim com uma pena branca e perguntou, ‘você pode nos ajudar? Você tem uma voz’. Esse foi o início de tudo. Então, eu voltei para música e mais algumas outras coisas. E isso só aconteceu quando as redes sociais surgiram, quando criei um site para doações e comecei a receber muitas mensagens sobre, ‘bem, você pode nos ajudar?, você pode nos ajudar?, você pode nos ajudar?’. E, pra ser sincero com você, eu não sabia o que fazer, era muita coisa. Eu pensei, ‘eu não posso fazer tudo isso'”.

A The White Feather Foundation, hoje, funciona como uma mãe às outras causas defendidas por Julian Lennon. Entre elas, está a Clean Water [Água Limpa, em tradução literal], a qual teve início em uma viagem inesperada à África, uma das grandes razões para ter organizado a exposição de fotos.

“Isso começou durante uma das primeiras viagens que fiz. Fui convidado por um amigo chamado Scott Harrison, que começou a arrecadar dinheiro para levar água potável para, literalmente, milhares de pessoas. Ele me chamou para uma viagem à Etiópia, onde fiquei por volta de 6 dias, visitando apenas lugares com água suja, ou sem água nenhuma. Então, fizemos algumas campanhas juntos. E recebemos resposta do público, sobre o quanto eles queriam ajudar, o quanto queriam doar. Durante mesmo período, eu fui convidado para uma viagem ao Quênia, para visitar clínicas, escolas. É realmente quando você vê as coisas em primeira mão, que elas te afetam mais. Sem dúvidas. Mas ter a oportunidade de estar naqueles países pela primeira vez, tentando capturar tanto a paisagem quanto as pessoas e, desta forma, trazê-las não só como memória para mim, mas também para pessoas que apenas têm a chance de ver isso pelas fotos. Foi o primeiro ano da morte da minha mãe, e meu aniversário era naquela semana. E eu pensei, ‘não vou ficar em casa sofrendo, quero levantar e fazer algo que nunca fiz antes’, então aceitei a proposta e fui nesse barco durante 10 dias por esses países, os quais nunca havia visitado”.

A ideia da exposição, segundo o artista, veio apenas cerca de três meses depois, enquanto editava as aproximadamente 5.700 fotos que havia tirado da viagem: “foi quando eu realmente comecei a ver coisas naquelas fotos”, disse Lennon.

Durante toda sua carreira, o sobrenome que herdou do pai foi um peso em suas costas. A cada lançamento de suas músicas, as comparações eram inevitáveis. A cada trabalho, John Lennon sempre era lembrado. Com o passar do tempo, Julian desenvolveu a habilidade de lidar melhor com a grande sombra e as infindáveis perguntas sobre o pai, porém, não esconde o trauma da ausência vivida quando era jovem.

Na coletiva, ao perguntarem sobre a mensagem que John Lennon queria deixar ao mundo, ‘Jules’ mostrou sinceridade e coragem admiráveis ao falar de uma pessoa tão idolatrada muito afora.

“Bom, em primeiro lugar, ele não foi um bom pai. Ele queria a paz e o amor, mas como já disse antes, isto nunca chegou a mim, em casa. Sabe, então ele vivia em dois padrões, a meu ver. Mas eu passei disso. Superei isso há tempos. Acho que a demora pelo meu perdão foi que eu levei muito tempo para perceber como a vida dele tinha sido. Mas, sabe, ele queria a paz, assim como eu quero a paz e tão quanto qualquer um de nós quer a paz. Por isso tento ajudar ao máximo com as instituições e as plataformas criadas. Também devo isso à minha mãe, que foi quem realmente me deu amor. Como disse antes, me ensinou a voar sem ter asas”.

A exposição “Cycles”, de Julian Lennon, ficará na Leica Gallery São Paulo (R. Maranhão, 600) até o dia 24 de junho. Os interessados poderão visitá-la gratuitamente de terça a sexta-feira, das 11h às 19h, e aos sábados, das 11h às 16h. Depois do Brasil, as fotos ganharão vez em Tóquio, no Japão.

Veja algumas das fotos que tiramos:

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